O GPS me levou para uma rua de terra batida que os mapas digitais insistem em chamar de "Rua Principal". No Alto do Moura, distrito de Caruaru que a Unesco reconheceu como o maior centro de arte figurativa das Américas, não há muito que seja principal. Tudo parece igualmente importante, igualmente vivo.

Era uma terça-feira de manhã quando cheguei. Não havia turistas. Havia artesãos trabalhando.

O barro que vira gente

Mestre Vitalino, que nasceu aqui em 1909 e morreu em 1963, é o nome que aparece nos livros de arte e nas peças de museu. Mas o Alto do Moura não é um museu. É um lugar onde mais de duzentas famílias ainda vivem do barro, criando figuras que retratam o cotidiano nordestino com uma precisão e um humor que nenhuma academia de arte ensina.

Dona Severina, 67 anos, é neta de um dos discípulos de Mestre Vitalino. Suas mãos moldam um vaqueiro a cavalo enquanto conversamos. O movimento é automático, como se as mãos pensassem sozinhas.

"Aprendi olhando minha avó. Ela aprendeu olhando o pai dela. Não tem segredo, tem tempo", diz ela, sem parar de trabalhar.

O mercado e a tradição

O mercado para o artesanato do Alto do Moura mudou nas últimas décadas. As peças mais simples, que antes eram vendidas por alguns reais nas feiras locais, agora chegam a galerias de arte em São Paulo e Nova York. Os artesãos mais reconhecidos têm listas de espera de meses para suas obras.

Mas essa valorização tem um lado complicado. Alguns artesãos começaram a produzir peças mais "comerciais", adaptadas ao gosto dos compradores urbanos, em detrimento das figuras mais tradicionais. É uma tensão que a comunidade ainda está aprendendo a navegar.